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Da Implantação à Expansão da Rede: o que o MACOR agrega às operadoras certificadas em APS

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) lançou recentemente, neste mês de maio de 2026, o edital da 3ª edição do Projeto Colaborativo Cuidado Integral à...

Da Implantação à Expansão da Rede: o que o MACOR agrega às operadoras certificadas em APS

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) lançou recentemente, neste mês de maio de 2026, o edital da 3ª edição do Projeto Colaborativo Cuidado Integral à Saúde, e desta vez com uma novidade estrutural: o MACOR, o Modelo de Atenção Coordenada em Rede. A iniciativa seleciona entre 15 e 50 binômios (formados por operadoras médico-hospitalares e seus prestadores de referência) para, ao longo de 18 meses, desenvolver, testar e coconstruir esse modelo junto à ANS.

Para quem acompanha a trajetória regulatória do setor, a mensagem é clara: o regulador estimula a certificação e avança para a regulação do modelo assistencial em si. E as operadoras que já percorreram o caminho da Certificação em APS pela RN 506 estão, objetivamente, em melhor posição para essa próxima etapa.

O que é o MACOR e por que ele importa

O MACOR é um modelo a ser testado em laboratório regulatório, na 3ª edição do Projeto Colaborativo Cuidado Integral à Saúde. Uma colaborativa na qual operadoras e prestadores constroem, ao lado da ANS, os parâmetros que poderão orientar o futuro eixo de regulação assistencial do setor.

A proposta parte de um diagnóstico que o setor já conhece: o modelo centrado em procedimentos e atendimentos pontuais esgotou seu potencial de gerar valor sustentável. Com mais de 52 milhões de beneficiários, um cenário de envelhecimento acelerado da população, com projeção de que uma em cada cinco pessoas terá mais de 65 anos até 2040, e crescimento expressivo das condições crônicas como hipertensão e diabetes, o sistema precisa de uma lógica diferente: cuidado contínuo, coordenado entre níveis de atenção e orientado pelas necessidades do beneficiário.

É exatamente essa lógica que o MACOR se propõe a estruturar: a Atenção Primária como porta de entrada real e coordenadora do cuidado em rede, e não apenas como uma camada adicional de serviços.

O que a RN 506 construiu

Antes de entender o que o MACOR adiciona, é preciso reconhecer o que a Certificação em APS, estabelecida pelo Anexo I da RN 506, já construiu.

Instituída em 2018 pela então RN 440, revisada em 2022 pela RN 506 e atualizada pelas RN 572/2023 e RN 644/2025, a certificação organiza sete requisitos centrais de boas práticas, baseados nos pilares clássicos da atenção primária: porta de entrada e primeiro contato acolhedor; longitudinalidade do cuidado; integralidade; coordenação da atenção; centralidade na família; orientação ao paciente e à comunidade; e, o mais inovador, modelos de remuneração baseados em valor.

As operadoras certificadas precisaram demonstrar, em avaliação realizada por entidades acreditadoras reconhecidas pela ANS, que possuem não apenas intenção, mas estrutura e processos efetivos: equipes organizadas para o cuidado primário, população-alvo definida e acompanhada (com presença obrigatória de adultos e idosos), indicadores de desempenho monitorados e, fundamentalmente, mecanismos de remuneração que vão além do fee-for-service tradicional.

A certificação existe em três níveis progressivos, que vão do básico (adultos e idosos) ao mais abrangente, que inclui crianças, adolescentes, gestantes e puérperas, cada um com itens essenciais que precisam ser atendidos integralmente para que a operadora pontue no requisito. Não há meio-termo: ou se está conforme nos itens essenciais, ou a nota no requisito é zero.

Ao meu ver, a ANS criou um sinal confiável no mercado. Um incentivo regulatório permite que operadoras certificadas em APS pela RN 506 recebam pontuação adicional automática na dimensão IDQS do IDSS (Índice de Desempenho da Qualidade em Atenção à Saúde), reconhecendo que a certificação já demonstra capacidade instalada nesses eixos. Dependendo do nível de certificação obtido, essa pontuação adicional pode ser de 0,20, 0,25 ou 0,30.

O que o MACOR adiciona: da prática à rede

Se a Certificação em APS respondeu à pergunta “a operadora tem as práticas e a estrutura?”, o MACOR responde a uma pergunta diferente: “a operadora consegue coordenar o cuidado em rede, entre diferentes níveis de atenção, com prestadores parceiros?”

Essa distinção é extremamente relevante, pois se trata de uma das maiores dificuldades enfrentadas pelas operadoras na implantação da estratégia de APS. Uma operadora pode ter uma excelente equipe de APS internamente e, ao mesmo tempo, operar uma rede fragmentada na qual o médico de família tem dificuldade em saber (ou até mesmo não sabe) o que aconteceu na consulta com o cardiologista, o cardiologista não tem acesso ao histórico do paciente, e o beneficiário repete exames a cada novo especialista que visita. Implantar protocolos de referência e contrarreferência é um dos maiores obstáculos, principalmente nas grandes operadoras.

O MACOR propõe justamente a superação dessa fragmentação: o binômio operadora + serviço de saúde procura a sinergia da atenção. O que será desenvolvido não é um programa para as operadoras isoladamente, mas um modelo de funcionamento conjunto, com protocolos de referência e contrarreferência, comunicação entre equipes, gestão de transições de cuidado e mecanismos de responsabilização compartilhada pelos resultados em saúde.

Para as operadoras certificadas em APS, que já comprovaram capacidade de longitudinalidade e coordenação do cuidado, a entrada no MACOR representa a extensão natural dessa competência para uma rede mais ampla.

O valor estratégico da coautoria regulatória

Há um aspecto do MACOR que merece atenção especial do ponto de vista de governança: as operadoras participantes não serão apenas objetos da regulação. Elas serão coautoras dos parâmetros que poderão orientar o futuro do eixo regulatório assistencial da ANS.

Esse é um modelo de regulação colaborativa relativamente incomum no setor. A ANS sinaliza que não pretende desenhar o MACOR em gabinete e impô-lo ao mercado, mas construí-lo a partir das experiências testadas em campo, com os acertos e os erros documentados ao longo dos 18 meses da colaborativa.

Para os conselhos de administração e conselhos consultivos das operadoras, isso representa uma oportunidade estratégica de primeira ordem. Participar do MACOR é ter voz ativa na construção das regras que definirão o modelo assistencial da saúde suplementar nos próximos anos. As operadoras que ficarem fora dessa construção receberão as regras prontas. As que participarem, ajudarão a escrevê-las.

O que os conselhos precisam avaliar

Do ponto de vista da governança das operadoras, a decisão de aderir ao MACOR envolve ao menos três dimensões que merecem análise cuidadosa pelo colegiado:

Prontidão operacional. A participação exige a formação de um binômio funcional com prestadores parceiros, o que pressupõe contratos, alinhamento de processos e disposição de ambas as partes para mudanças no modelo de trabalho. Operadoras certificadas em APS partem em vantagem, pois já possuem a infraestrutura básica de gestão do cuidado primário.

Tolerância ao risco da inovação. O MACOR é, por definição, um espaço de teste. Nem todos os modelos que serão experimentados serão bem-sucedidos, e isso faz parte do design da iniciativa. Os conselhos precisam estar preparados para avaliar resultados que incluirão aprendizados de falhas, e não apenas de acertos.

Visão de longo prazo. Os incentivos imediatos são relevantes (pontuação no IDSS, apoio metodológico, mentorias), mas o ganho principal é estratégico: capacidade assistencial diferenciada, reputação junto ao regulador e influência sobre o marco regulatório do setor.

Conclusão

A 3ª edição do Projeto Cuidado Integral e o lançamento do MACOR marcam um ponto de inflexão na trajetória regulatória da saúde suplementar brasileira. A ANS avança da certificação de práticas para a regulação do modelo de funcionamento em rede, e faz isso em coconstrução com o mercado.

Para as operadoras que percorreram o caminho da Certificação em APS pela RN 506, o MACOR não é um recomeço. É a continuação lógica de uma jornada que já estava em curso. A certificação exigiu a implantação da lógica de APS: equipes estruturadas, coordenação do cuidado, longitudinalidade, remuneração baseada em valor. O MACOR exige o passo seguinte: expandir essa lógica e fazê-la atravessar toda a rede referenciada, própria e credenciada, nos diferentes níveis de atenção. É na adesão efetiva dessa rede pelos especialistas, hospitais, serviços de apoio diagnóstico, que a coordenação do cuidado se converte em resultado real para o beneficiário.

O que os conselhos dessas operadoras precisam decidir não é se vale a pena participar. É se podem se dar ao luxo de deixar que outros escrevam as regras do jogo.

Referências

AGÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE SUPLEMENTAR. Resolução Normativa nº 440, de 13 de dezembro de 2018. Institui o Programa de Certificação de Boas Práticas em Atenção à Saúde de Operadoras. Rio de Janeiro: ANS, 2018.

AGÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE SUPLEMENTAR. Resolução Normativa nº 506, de 30 de março de 2022. Institui o Programa de Certificação de Boas Práticas em Atenção à Saúde de Operadoras de Planos Privados de Assistência à Saúde (PCBP) e revoga as RN nº 440/2018, nº 450/2020 e nº 463/2020. Rio de Janeiro: ANS, 2022. Inclui Anexo I — Manual de Certificação de Boas Práticas em Atenção Primária à Saúde (APS).

AGÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE SUPLEMENTAR. Resolução Normativa nº 572, de 2023. Atualiza o Programa de Certificação de Boas Práticas em Atenção Primária à Saúde e acrescenta anexos à RN nº 506/2022. Rio de Janeiro: ANS, 2023.

AGÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE SUPLEMENTAR. Resolução Normativa nº 644, de 30 de setembro de 2025. Altera a Resolução Normativa nº 506, de 30 de março de 2022, que institui o Programa de Certificação de Boas Práticas em Atenção à Saúde de Operadoras de Planos Privados de Assistência à Saúde. Rio de Janeiro: ANS, 2025.

AGÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE SUPLEMENTAR. Edital da 3ª edição do Projeto Colaborativo Cuidado Integral à Saúde. Rio de Janeiro: ANS, maio de 2026. Disponível em: https://www.gov.br/ans/pt-br/assuntos/noticias/qualidade-da-saude/ans-abre-inscricoes-para-a-3a-edicao-do-projeto-cuidado-integral-a-saude

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